Edward Osborne Wilson Entomologista e biólogo, especialista em ecologia, evolução e sociobiologia. O que nos resta para explorar? A biosfera, é claro; essa fina lâmina de vida que cobre a superfície da Terra, tão estreita que, de um ângulo perpendicular, não pode ser vista do espaço e ainda assim é, disparada, a entidade mais complexa do Universo que conhecemos. E quão bem conhecemos esta parte da Terra? Proporcionalmente, quase nada. Vivemos num mundo praticamente desconhecido. Vejamos alguns exemplos. O animal mais bem estudado é a ave, cujos dados são cuidadosamente coletados por pesquisadores e exploradores há séculos. E mesmo assim, em média, 3 novas espécies surgem a cada ano. Comparável a elas só mesmo as plantas: conhecemos cerca de 280 mil espécies fora de possíveis 320 mil que se estima que existam. Daí em diante os números entram em queda livre. Era de se esperar que anfíbios - sapos, salamandras e gimnofionos - se comparassem às aves, mas a verdade é que eles ainda são pouco estudados: de 1985 a 2001, 1.530 novas espécies foram constatadas e incrementadas à lista de 5.300 espécies existentes, um quarto do total, e com mais espécies sendo encontradas a cada ano. Ao passarmos para os invertebrados, aos quais batizei de “coisinhas que controlam o Planeta”, daremos uma olhada nas profundezas de nossa ignorância. Considerem os nematódeos, criaturas cilíndricas quase microscópicas que alçam formas de vida e parasitas em todos os lugares do Planeta, tanto na terra quanto no mar. São as criaturas mais abundantes do mundo. Um entre cada cinco animais vivendo na Terra é um nematódeo. Se toda matéria sólida do Planeta se tornasse invisível, exceto os nematódeos, ainda poderíamos ver a silhueta dessas minhocas do espaço. Existem 16 mil espécies conhecidas dessa criatura, no entanto se estima que o número verdadeiro seja de 15 milhões. Com toda certeza o ecossistema do Planeta e a humanidade dependem dessa minhoquinha, mas não sabemos quase nada sobre a grande maioria delas. Continuando, cerca de 900 mil tipos de insetos são conhecidos pela ciência (acabo de finalizar a descrição de mais 340 novas espécies de formigas, por exemplo), mas o cálculo verdadeiro deve girar em torno de 5 milhões. Quantos tipos de plantas, animais e micro-organismos compõem a biosfera? Algo em torno de 1.5 e 1.8 milhões de espécies catalogadas que receberam um nome científico em latim. Mas quantas espécies existem de verdade? É um absurdo que não saibamos em magnitude quantas de fato existem. O número poderia variar de 10 milhões a 100 milhões ou quiçá ainda mais. Nós, da área da biodiversidade, dizemos que o nosso conhecimento é de apenas 10% de todas as espécies de organismos vivos. Os nematódeos, insetos e invertebrados se apequenam diante da diversidade de bactérias e a archaeas, a matéria escura do Planeta Terra. Tem-se conhecimento de mais ou menos 6 mil espécies de bactérias. Esse número pode ser encontrado em 10 bilhões de células bacterianas num grama, ou num punhado, de terra - todas são virtualmente desconhecidas pela ciência. Estima-se atualmente que uma tonelada de terra fértil possa conter 4 milhões de espécies de bactéria. Acreditamos que cada uma delas é especificamente adaptada a um nicho particular, resultado de um longo período evolutivo. Não sabemos que nichos são esses. O que sabemos é que dependemos desses organismos para sobreviver. Uma pesquisa que está em andamento agora visa pelo menos desvendar o mistério das bactérias que existem dentro de uma boca humana. O número de espécies adaptadas a esse tipo de ambiente é de 700. São bactérias amigas; construíram uma relação simbiótica que nos protege da invasão de bactérias malévolas. Para essas espécies a boca é um continente. Lá elas habitam as cordilheiras dos dentes; percorrem longas distâncias e adentram os profundos vales da gengiva; navegam de lá pra cá por correntes oceânicas de saliva. Não estou sugerindo que se dê uma bússola de explorador para um dentista. Mas deu pra entender a mensagem. Em todos os cantos do mundo, inclusive no Central Park onde recentemente foi achada uma nova espécie de centopéia, se encontram desconhecidos tipos de vida aguardando a descoberta. Porém, se nada disso lhe impressiona, você por um acaso ficaria satisfeito com um Planeta novo inteirinho para o seu deleite de pesquisador? O mais próximo que podemos chegar a isso é o mundo dos SLIMEs (um acrônimo em inglês para Subterranean Lithoautotrophic Microbial Ecosystems ou Ecossistema Microbial dos Quimiotróficos Subterrâneos), um vasto leque de bactérias e fungos microscópicos reproduzindo-se debaixo da superfície da Terra a uma distância igual ou superior a 3.2 quilômetros, completamente independentes da vida que existe sobre a Terra, alimentando-se da energia derivada de material inorgânico, possivelmente produzindo uma massa de vida superior a que vive aqui em cima. Os SLIMEs têm grandes chances de sobrevivência caso queimemos tudo que existe na superfície terráquea. Quando abordamos a biodiversidade, somos todos exploradores; os cientistas e todos aqueles que se importam com a natureza, somos todos iguais a Vasco Núñez de Balboa e sua tropa num morro na região do Darién, no Panamá, em 1513, diante do novo oceano, o Pacífico, observando, como diz o verso de John Keats: “...em admiração selvagem do mundo desconhecido que se estendia diante deles”. | |
segunda-feira, 14 de junho de 2010
O que nos resta para explorar?
A natureza é necessária para o nosso bem-estar
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| Ponte Medieval sobre o Sesin e-costa |
A revista Observer publicou um artigo a sugerir que necessitamos dum meio natural para o nosso bem-estar psíquico e físico. Parece comprovado que os ambientes verdes favorecem a capacidade de atençom e memória para além de reduzir a agressividade assim quanto a recuperaçom física.
O escritor H D Thoureau nom estava errado quando escreveu, com certo exagero, 'Acho que nom podo conservar a saúde e o espírito sem passar no mínimo quatro horas por día … sauntering polas matas, colinas e campos, absolutamente isento de todas as obrigações mundanas'. Onde 'sautering' é 'peregrinando' e 'fazendo santa a terra que se pissa'.
Estas palavras quadram bem com a teoría da revitalizaçom da atençom (A.R.T. nas suas siglas em inglês) iniciada por Stephen e Rachel Kaplan ao aperceberem-se da nossa preferência pola atençom de ambientes naturais. Em suma, temos dous tipos de atençom: involuntária e voluntária. A primeira é espontánea e gosta do fascínio enquanto a segunda exige muita energia ao dar-se a resolver problemas e, portanto, pode conduzir à fadiga mental. A fadiga é revitalizada no sono mas também na contemplaçom da natureza.
Em 2008 Psychological Science publicou um artigo sobre umha pesquisa de Marc Berman junto com Stephen Kaplan e John Jonides. Nele 38 estudantes voluntários faziam tarefas que exigiam umha grande capacidade de concentraçom. O grupo foi dividido em duas metades; umha deu um passeio pola cidade enquanto a outra caminhava por um arvoredo. O segundo grupo fijo melhor pontuaçom nas provas de concentraçom.
Dar umha caminhada dumha hora por um parque, tanto tem se com calor ou frio, ou simplesmente ver fotos da natureza melhora a nossa capacidade de atençom e memória. Para Kaplan isso é devido a que os nossos ancestrais evoluírom em plena conexom com a natureza. Ao estarmos com ela, estamos em casa.
Em 2010 Berman e Kaplan resumírom 13 trabalhos sobre a A..R.T. na Perspective on Psychologal Science onde sugerem, entre outra muita cousa, que a contemplaçom da natureza é muito melhor do que entreter-se com a televisom.
Ao invés de aliviar a carga da atençom direta, a televisom tenta procurá-la para evitar que o telespetador mude de canal. O resultado é umha maior irritabilidade ao crescerem as horas perante a televisom. No curto prazo os programas de televisom favorecem o escapismo dos pensamentos do dia-a-dia mas, afinal, impede a mente se centrar em reflexões necessárias.
'O fascínio que parece ser importante na recuperaçom da atençom nom é como o que acontece na televisom,' diz Kaplan. 'A natureza nom é só fascinante dumha forma suave e gentil, ela é também agradável, o que significa que fai com que se poda pensar de jeito mais eficaz sobre questões que nom som confortáveis'.
Verde positivo
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| Cascatinhas Domingos Xavier |
A extensão lógica da A.R.T. é que as pessoas privadas de paisagens naturais irám ter comportamentos de mentes cansadas. William Sullivan e Frances Kuo, da Universidade de Illinois, nos EUA, propugérom que se a atençom fatigada está relacionada com a irratibilidade, e ela leva à agressom, daquela as pessoas privadas do efeito revitalizador da natureza seria mais agressiva.
Sullivan e Kuo testárom a sua premissa em 145 mulheres residentes num complexo de habitaçom social urbana em Chicago. Os investigadores relataram níveis significativamente inferiores de agressom e violência naquelas que moravam perto de zonas verdes.
Como quer que se relacionia a agressividade coma impulsividade, nom surpreende que noutra pesquisa de Kuo, Sullivan e Andrea Taylor encontraram relaçom entre exposiçom à natureza e auto-controlo. Ao estudar 169 mulheres a morar num mesmo complexo, os pesquisadores descobrírom que aquelas com vistas verdes desempenhavam melhor tarefas relacionadas com a disciplina para além de terem melhores notas em testes de concentraçom, inibiçom da impulsividade e capacidade de adiar a gratifiçom.
Estas conclusões sobre agressom e auto-disciplina podem ser transferidas para a conduçom de automóvel. Um estudo testou a habilidade das pessoas de tolerar a frustraçom na estrada em diferentes cenários. As pessoas assistiam a um dos três vídeos de conduçom – umha estrada de vegetaçom densa, outro de vegetaçom esparsa e outro misto – axinha fôrom convidadas para resolver um anagrama insolúvel. As pessoas que figérom a sua viagem numha estrada de vegetaçom densa trabalhárom na tarefa 90 segundos mais do que os outros grupos.
A mostrar os benefícios psicossomáticos dos espaços verdes, Mitchell e Popham do Reino Unido, informárom em 2008 que as populações que vivem perto de ambientes naturais têm melhor nível de saúde do que os grupos afastados das zonas verdes. Na sua hipótese, a desigualdade de renda relacionada com a sua saúde seria menos acentuada nas populações com maior exposiçom a espaços verdes capazes de modificar os caminhos polos quais a situaçom sócio-económica pode levar à doença.
De modo parecido um artigo em Science de Roger Ulrich indicava que os pacientes de hospital cuja janela dava para a natureza registavam estadias mais curtas de pós-operatório, necessitavam menos analgésicos e eram mais positivos do que aqueles que tinham uma janela que dava para uma parede de tijolos.
Ciência nos movimentos sociais
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| Luz Dourada Paulo Brandão |
O trabalho de Mayer e Kahn está polo menos parcialmente no campo ecopsicologia. Amiúdo adotado por terapeutas, a ecopsicologia tem sido considerada mais um movimento social ou visom de mundo do que umha disciplina científica. Mas a chamada de "segunda geraçom" de ecopsicólogos surgiu com a intençom de dar às teorias do movimento uma base empírica.
Esta evoluçom resolveu-se num livro co-editado por Kahn e Hasbach, umha terapeuta clínica do Oregon intitulado Ecopsychology: Science, Totems, and the Technological Species . "Ao colocarmos a palavra Totens” - umha referência à ecopsicologia simbólica, as suas raízes experienciais - "entre Ciência e Espécies Tecnológicas", diz Hasbach, "estamos abraçando ... o reconhecimento do lugar da ciência para promover este campo."
Thomas Doherty, psicólogo clínico em Portland, Oregon, que dá aulas de ecoterapia com Hasbach na Lewis & Clark University, quer adotar métodos empíricos para a ecopsicologia. Editor do jornal Ecopsychology, Doherty diz que o seu objetivo com a publicaçom é "afastar-se do estereótipo" de a ecopsicologia ser um esforço nom-científico. "Sou essencialmente um clínico", diz ele, "mas nom pode funcionar bem sem investigaçom."
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